Beleza Receitas Maquiagem Vídeos Look do dia Viagens

Se inscreva no Canal

sexta-feira, outubro 30, 2015

Entrevista com Jessica "Ketchup" Gomes

Depois de tanto se falar em feminismo após as polêmicas da prova do ENEM, em mídias sociais e muitos meios, vimos que um grupos não muito seletos de pessoas costumam a silenciar muitas vozes femininas em seus programas. Dia desses, escutei um podcast (Anticast) sobre o machismo  no meio nerd (escute aqui). Procurei as participantes femininas do programa e sugeri uma entrevista pra entendermos um pouco do feminismo,  porquê e por quem ele luta, pela visão própria feminina (sim, muitas pessoas não entendem e acham que é apenas "frescura"! Abra sua mente antes de ler essa entrevista!).

10565267_710929635623088_8272887658933071535_n

Jéssica "Ketchup" Gomes por ela mesma: "Tenho 24 anos, e sou formada em jornalismo. Por agora não faço nada específico além de cuidar de páginas no Facebook que envolvem militância negra e cuidar do 'Lado esquerdo da força', um grupo seguro para nerds."

 

 

GO: O que é feminismo pela sua visão?

JKG: O feminismo é uma maneira de visibilizar quem sofre uma opressão constante na sociedade misógina. Então pode estar incluída mulheres cis e trans, homens trans, ou seja, todos aqueles que sofrem opressão pelo seu gênero.

 

GO:  Acha válido a luta ou acha que foi muito defamada por causa das redes sociais?

JKG: Acho que quando sofre um desconhecimento da maior parcela da população, tudo e qualquer vertente ideológica e politica pode ser descaracterizada pela falta de informação. A luta é sempre válida, qualquer luta advinda de pessoas oprimidas porque essas nunca tiveram vozes e quando tem tentam articular da melhor maneira.

 

GO: Em muitos grupos, a maior parte dos homens acham o feminismo exagero da parte das mulheres. O que pensa sobre isso?

JKG: Quando não se sofre algo é mais fácil, com o olhar distante e e carregado de privilégios, culpar os outros por apontarem as mazelas sociais. A partir do momento em que houver empatia, o homem enxergará a importância do feminismo para as mulheres contemporâneas.

 

GO: Como você se sente quando vê que, apesar de ser anexado como crime hediondo o feminicídio e a Lei Maria da Penha, esses tipo de crime continua em altos índices?

JKG: Essa violência vem, muito da cultura misógina onde culpabiliza mulheres de crimes onde são vitimas. O sistema ainda prioriza o esquema heteronormativo patriarcal onde o homem é detentor do poder familiar, trazendo ainda a ideia que as mulheres tem de se sujeitar aos mandos e desmandos de seu companheiro.

 

GO: Como você pensa que podemos combater o machismo e o pensamento de que a mulher sempre será inferior pra essa geração de agora e as futuras?

JKG: Com educação sobre gêneros. Explicar sobre a igualdade de gêneros e dar iguais oportunidades para homens e mulheres é o caminho para modificação de pensamento misógino, além disso, conscientizarem os pais sobre os maleficios da sociedade apenas focada no esquema patriarcal.

 

GO: Como mulher, já sofreu algum preconceito, humilhação ou algo do gênero? Como isso foi feito de aprendizagem pra sua construção como feminista?

JKG: Sim, desde assédios quando ainda criança quanto invisibilidade em várias situações por conta do meu gênero. Isso ajudou na identificação nos discursos feministas, e perceber que eu não era um caso isolado e que tudo estava conectado ao meu gênero.

 

GO: Muitas pessoas chamam o feminismo disseminado pelas redes sociais como "feminismo branco" onde homens dizem que as mulheres apenas falam mas na vida real nada fazem pra mudar a realidade. Acha que isso de fato existe?

JKG: Eu encaro o “feminismo branco” como o feminismo sem recorte, onde considera a opressão pelo patriarcado a única válida. Temos que lembrar que o machismo é cruel, assim como racismo e lgbtfobia, logo, todos sofrem em sua determinada opressão. O lance de ser feminista de internet é ainda válidos, discussões são sempre válidas. Não é todo mundo, principalmente mulheres periféricas, que podem largar casa, filhos, trabalho para ir ajudar numa ONG no meio de semana, ou discutir numa reunião no centro da cidade. Cada um faz o que pode e assim já ajudamos umas as outras.

 

GO: Como se sente que, apesar da luta, das conquistas, as mulheres nas redes de grande distribuição de entretenimento (como internet, tvs, etc) ainda é mais bem vista apenas pelo corpo ou aparência do que pelo conteúdo que tem?

JKG: Isso tudo parte da cultura machista, que trata as mulheres como objetos de satisfação, prazer e procriação. Muitas agências de publicidade e emissoras revem, mas a maioria ainda segue o padrão objetificador. É um trabalho de formiga fazer com que as próprias mulheres percebam o quanto vão sofrer com os mesmo que lhes dão “oportunidade de trabalho”.

 

GO: No meio nerd você já sofreu preconceito? Já foi taxada como mais "uma menina que quer atenção masculina"? Como se sentiu perante esse posicionamento de um grupo mais aberto e receptivo como os nerds?

JKG: Acho que a maioria das meninas geeks sofreram com isso, eu durante muito tempo não era levada a sério quando queria jogar com os meninos, e posteriormente fui tida como “attwhore” que seria algo como “vadia da atenção”. A ideia de que a mulher não pode gostar de coisas “masculinas” nos faz procriar a ideia de mulher que gosta de se arrumar para homens e cuidar das coisas de homens. Uma garota que joga, se diverte com algo “masculino” quebra essa ideia, o que é muito difícil para compreender para muitos que se apegam aos esteriótipos de gênero.

 

GO: Vemos todos os dias crimes passionais sendo cometidos por homens. Acha que são apenas mais uma desculpa por ter agredido/matado uma mulher ou acredita que realmente crimes motivados por paixão seguidos de arrependimento existam?

JKG: O crime passional muitas vezes parte de um relacionamento abusivo. Relacionamentos abusivos tem como base o sentimento de que a companheira é um objeto para o homem. O arrependimento pode existir, mas nada justifica a violência para com a mulher.

 

GO: Já foi subjugada por algum ato que fuja do contexto social comum (como transar no primeiro encontro, fazer tatuagens, ter cabelos vermelhos...)?

JKG: Sim. A quebra da normatividade vigente onde espera que eu faça determinadas coisas, de determinados jeitos nos faz ser subjugadas. Hoje sofro menos com comentários porque sei que além de irrelevantes, só refletem o que a sociedade quer que eu me torne, e eu não quero ser parte de uma sociedade que quer me diminuir, quero modificar esse cenário.

 

GO: O que pensa de movimentos como a Marcha das Vadias? E suas antíteses como a página "Eu Não Mereço Mulher Rodada"?

JKG: A marcha é sensacional pela visibilidade e reunião fora da internet. Lógico que existem erros por tentar aglomerar todas as vertentes e assim discussões ideológicas, mas nada errado. Essas páginas machistas só são discurso de ódio, assim como páginas homofóbicas e racistas. A questão é que levam menos a sério porque o machismo ainda é muitas vezes relativizado.

 

...............................................................................................................................................

 

Hoje em dia, virou "moda" criticar as feministas porque acham ainda que elas lutam por um "ideal vazio". Bem, por isso mesmo, chamamos a Jessica, uma feminista com seus ideais e opiniões bem construídos pra mostrar a visão real do que tanto é criticado, martirizado e taxado como radical.

Tomara que muitas pessoas tenham aberto mais a mente sobre suas opiniões na nossa situação atual. Compartilhamos todos os dias, situações de assédio e abuso (moral, sexual) onde nós, mulheres, temos medo de denunciar e acabamos silenciadas. Ou temos que compartilhar de uma opinião comum por causa de nossa criação ou visão parcial da sociedade. Resolvi fazer essa entrevista porque nós vivemos em uma sociedade preconceituosa, exigente e machista, onde a mulher é apenas um objeto de uso. Aqui, nós não apenas expomos nossas opiniões, mas também, procuramos trazer opiniões que nos enriqueçam em conteúdo também. Muitos homens não tem realidade das violências que a mulher sofre (seja no trabalho, em casa, na rua, nos transportes públicos...) e até muitas mulheres também não têm essa noção.

 

Em nome do Gordinhas Ousadas, agradecemos muito a Jessica e todas as mulheres e homens (sim, existem homens feministas!) que lutam pra uma sociedade melhor, receptiva e não tão mente fechada quanto as escolhas pessoais que todos fazem.

 

E que tenhamos mais bom senso ao criticar!

 

Beijos da Rê. <3

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário